Porque o Brasil ficou para trás

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Como retirar as pedras do caminho do desenvolvimento

Correndo atras 2Na década de 1960 o Brasil era considerado o país mais promissor para entrar no clube dos ricos – países de renda per capita elevada. O que deu errado? Por que continuamos até hoje como um país de renda média? No artigo anterior nós conversamos sobre um dos principais bloqueios ao desenvolvimento: uma elite extrativista que, com pequena parcela de 2% da população, se apropria de 50% dos impostos recolhidos de toda a população.

Mas, você pode estar se perguntando. Seria só isso?  Na verdade, há outra razão muito importante que vamos analisar nesta conversa: a qualidade da produção da elite científica do país. Ou seja, a produção de ciência que resulte em inovação de produtos e processos que criem benefícios econômicos (patentes). Continue comigo.

 Muitos estudos têm sido publicados abordando a questão da estagnação de países no nível de renda média.

Os fatores mais mencionados são a qualidade das instituições políticas, as características do sistema de ensino e inovação, as condições demográficas, as estruturas dos setores de produção e comercialização, diversificação da economia, infraestrutura física e qualidade das instituições financeiras. Ou seja, uma quantidade enorme de fatores mas, para cada país, alguns foram mais importantes que outros.

No entanto, dois fatores aparecem com muito mais importância que outros para todos os países: qualidade das instituições políticas e qualidade dos sistemas de ensino e inovação.

Veja o modelo de desenvolvimento e criação de riqueza de um país que tenho utilizado em nossas conversas. Lembrando, o modelo é baseado na pirâmide de criação de riqueza que aparece na nota de 1 dólar americano.

Modelo pirmide para inovao

As instituições políticas e o cumprimento das leis são fatores comuns em todas as economias de alta renda e são condições necessárias para a transição entre renda média e renda elevada. É a base da pirâmide: organização social inclusiva. No entanto, não são condições suficientes. Melhor dizendo, somente possuir um regime democrático não garante o progresso em busca de uma sociedade de elevada renda. 

Muitos países da América Latina, inclusive o Brasil, possuem um sistema político de alta qualidade democrática, mas continuam presos na armadilha da renda média.  No caso do Brasil, apesar de ser um país democrático, possui uma elite extrativista, conforme vimos em nossa conversa anterior.

Num país onde uma elite correspondente a 2% da população absorve 50% dos impostos recolhidos (custo muito elevado apenas para manter a máquina do governo funcionando), sobra pouco dinheiro para outras iniciativas que podem impulsionar muito mais a economia, como a pesquisa e inovação, conforme veremos.

Países de baixa renda e mesmo os de média renda tendem a competir no mercado internacional com base em preço baixo e moeda desvalorizada, em vez de inovação e diferenciação. Exportações sustentáveis em crescimento, com base em salários baixos e desvalorização da moeda, são importantes porque os países de renda média precisam “fazer” moedas fortes para pagar as importações de bens de capital inovadores que vão sustentar seu desenvolvimento. 

No entanto, para garantir esse crescimento sustentável do comércio exterior, os países precisam desenvolver sua capacidade de criar inovações e deixar de competir apenas com base no preço baixo.

A ênfase na inovação é apontada em muitos estudos, principalmente do Banco Mundial, porque a armadilha da renda média tende a acontecer em países que não têm capacitação tecnológica para competir com exportadores de países desenvolvidos, que oferecem produtos de alta tecnologia e diferenciados. Como esses países pagam salários mais elevados, o mercado interno tende a ser mais forte.

É amplamente reconhecido que a falta de inovação tecnológica é um dos maiores obstáculos ao crescimento de muitos países, principalmente os países de renda média da América Latina.

Os países que deram o salto de renda média para renda elevada desenvolveram sistemas educacionais de alta qualidade e incentivaram a inovação. As empresas e comunidades acadêmicas que produzem patentes e artigos científicos de qualidade são fatores fundamentais para essa transição e criam um ambiente de produção, difusão e uso de conhecimento novo e economicamente útil.

As principais empresas da AL do setor industrial tendem a ser subsidiárias de empresas multinacionais ou possuem fortes ligações com essas empresas. Isso produz uma baixa demanda de desenvolvimento científico pelas empresas e como consequência as prioridades de pesquisa das universidades são estabelecidas pela própria comunidade acadêmica, com pouca negociação com o setor produtivo.

Como resultado, muitos países abaixo do Equador não desenvolveram um sistema efetivo de transmissão de conhecimento científico em conhecimento tecnológico e dessa forma o conhecimento produzido não apresenta características comerciais. Dada a baixa demanda do setor industrial, o setor de ciência tende a focar nas pesquisas acadêmicas que são irrelevantes para a criação de inovação para competir no mercado internacional. Produzem bons artigos que circulam apenas dentro da “torre de marfim” da academia. No Brasil, há exceções notáveis, claro, principalmente na Embraer, Petrobrás, Vale, Embrapa, Fiocruz e outros.

Em contraste, a política prevalecente nos países da Ásia favorece as pesquisas tecnológicas sobre as científicas, enfatizando o desenvolvimento tecnológico do setor privado industrial. Essas firmas investem em projetos próprios de R&D, adaptando e assimilando tecnologias estrangeiras. Como resultado há uma demanda crescente por parte do setor industrial de ciência aplicada.Isso explica em parte porque o “estilo asiático” de dar o salto de renda não foi observado na América Latina. Observe na figura abaixo que a Coreia do Sul investe 4,3% de seu PIB em P&D.

 PeD relacao PIB

E o Brasil? Deixo a resposta para um artigo da FINEP de onde extrai um parágrafo. Investimos apenas 1,27% do PIB em pesquisas.

FINEP artigo

No final você encontrará um link para acessar o artigo todo, caso seja de seu interesse.

Logicamente isso tudo reflete no baixo número de patentes detidas pelo Brasil. Um painel recente de estudos econométricos mostrou que o conhecimento tecnológico (patentes) influencia diretamente o desenvolvimento do país, em vez do conhecimento científicos (artigos publicados).

O número de patentes é um dos fatores que refletem o grau de inovação de um país. Uma patente é requerida e concedida para o domínio de uma tecnologia, seja de produto inédito ou para aprimorar alguma invenção.

O último relatório anual da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (WIPO), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), mostra que o número de patentes válidas no Brasil está atrás de países considerados referência em inovação.

Dados de 2012 mostram que o Brasil está em19a. posição quanto ao número de patentes com 41.453 patentes válidas.  O último lugar entre os BRICS, onde temos a China com 875 mil, Rússia com 181 mil, África do Sul com 112 mil e Índia com 42.991. Em primeiro lugar temos os Estados Unidos com 2,2 milhões de patentes, seguido do Japão com 1,6 milhão, Coreia do Sul com 738 mil e Alemanha com 549 mil. Isso mostra o nosso atraso.


A conclusão que chegamos é que, além de investirmos muito pouco em pesquisa (apenas 1,27% do PIB) ainda aplicamos o dinheiro na criação de ciência que não gera benefícios econômicos expressivos. A tabela abaixo mostra claramente onde os investimentos em pesquisa são aplicados.

P e D e PIB

Para encerrar, mostro os títulos de dois artigos que podem ser encontrados na internet e que mostram bem como essa preocupação é generalizada. Se estiver interessado em conhecer melhor esse assunto, recomendo sua leitura. Até a próxima conversa.

FGV

 Link para acessar o artigo da FGV

IPEA

 Link para acessar o artigo do IPEA

 Link para acessar o artigo da FINEP

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